O Mito do Calango Voador

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Tudo está contido em um mesmo arco, o fazer e o encantar. Representar, contar, cantar e dançar as histórias de nossa espécie, estimulando o prazer de criar o já sabido, o pressentido e reconhecido por nossas almas.

O Brasil passa por um grande momento em sua cultura. E ela, que em um certo período adquiriu um ar de mercado, de produto, volta a procurar sua origem espontânea e reencontra-se sendo cuidada por mestres e grupos tradicionais.

Neste reencontro nos deparamos com nossos mitos, com seres fantásticos do imaginário popular brasileiro. Estas figuras que habitam a mente de nosso povo são coloridas, espertas, alegres, têm memória, afetividade e existência própria. Cada criatura e personagem de nossa tradição popular traz em si um profundo retrato de nossas vidas.

O Mito do Calango Voador, alimentado através das músicas, danças e brincadeiras do grupo Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro, busca povoar com novos seres este incrível imaginário popular brasileiro. Levar para este mundo sobrenatural modernas figuras ligadas ao cerrado, terra do grupo.

 

A MITOLOGIA


O SOM.

O princípio. O grande Deus. Tudo se faz por meio dele, do SOM. Todo Ser vivo tem um som ou guarda um. Há vários sons que os ouvidos humanos não escutam.

O SOM sempre desce a Terra, até hoje. Vem pelo trovão, mergulha no Rio e se esconde em um peixe do cerrado, em um Piau. Por isso os Piaus são sagrados para o Rio. Dentro do Piau o SOM escuta a música da Terra criada por ele. Qualquer outra criatura que recebesse o SOM poderia sem querer soltá-lo, destruindo a Terra ou alterando toda a sua vida. Quase todas as criaturas emitem o som, o peixe não. Por isso é ele o escolhido para receber o SOM aqui na Terra. 

Quando vai subir ao céu, o SOM toca uma linda melodia, algumas criaturas como os humanos não conseguem escutá-la com os ouvidos, só com os olhos. Do cantar do SOM subindo ao céu surge o arco-íris, quase sempre acompanhado de um som de chuva fina. Música para os olhos humanos.


Parte I - A História do Surgimento da Noite. Ou Como Nasceu Seu Estrelo, o Gavião e a Caliandra.

No tempo em que só existia o dia, no mundo várias coisas já viviam e todas tinham um ruído, um canto, uma fala.
E assim, toda vez que aparecia mais um barulho, uma nova criatura tomava vida.
O que não existia era a noite.
Foi neste tempo que LAIÁ surgiu. Filha de um cantar da MATA.

Junto com LAIÁ nasce seu irmão, LUZBELO. Ele é formado pelo silêncio do canto da mata, pela pausa, pela inspiração da respiração. Por isso não tem forma. Por ter sido formado nos momentos em que a mata puxava o ar para dentro do seu corpo, ele pode penetrar qualquer outro ser, embaralhando os pensamentos de quem dorme, fazendo com que as criaturas sonhem entrando em seu mundo. LUZBELO é o dono dos sonhos.

LAIÁ cresce entre as árvores e os bichos, se enfeita com as penas dos pássaros.
No tempo em que só existia o dia, LAIÁ dormia acalentada pelas Sombras.

As Sombras, no tempo em que só existia o dia só se arrastavam de um lado para o outro, sonhavam em subir pro céu assim como os pássaros.
De tanto sonhar com isso, inventam de inventar uma grande ave.
Pegam as penas do cocar de LAIÁ enquanto ela dormia e fazem um pássaro negro em plena luz do dia. Foi assim que surgiu o GAVIÃO.

As sombras então se agarraram na ave, que voa com elas para o céu.

Mas quando as sombras chegam ao céu, ele fica escuro. O dia escurece.
Os bichos se agitam. Aflita a Mata procura LAIÁ, que de besta não tinha nada, e já tava escondida. Quando as sombras chegam ao céu se faz surgir à noite.
Pela primeira vez na terra foi possível ver as Estrelas e a Lua.
Foi um susto, um encantamento, uns bichos começaram a uivar, outros se cagaram todinho, mas no fim todos se renderam ao luar.
Até hoje, todo dia as sombras sobem com o gavião e transformam o dia em noite e depois com o plumado descem transformando a noite em dia.

Com a noite acontecendo todo dia e o dia aparecendo todo dia depois da noite, os dias começaram a ser contados e com seu passar, cresce ainda mais LAIÁ.
Um dia sentada numa pedra LAIÁ menstrua, corre gritando assustada com o seu sangue, lá pra dentro da Mata.
Por onde LAIÁ passa vai deixando pingos de sangue. As flores morrem de rir, zombando da cara de assustada de LAIÁ.
A Mata, sua mãe, pede para LAIÁ se acalmar e diz que não tem necessidade nenhuma dela ficar assustada, que todo aquele sangue nada mais é que a vida molhada.
Para mostrar a LAIÁ a beleza desse momento a Mata transforma os pingos de sangue de LAIÁ em Caliandras, cada pingo vira uma linda flor vermelha.
Para se vingar das flores, que ficaram rindo do medo de LAIÁ, a Mata não deixa a chuva
tocar seu corpo, fazendo assim com que todas as flores murchem, as únicas que ficam inteiras são as Caliandras. Até hoje, são elas que embelezam as Matas do Cerrado quando a seca acontece, mas isso é outra história.  

LAIÁ se torna mulher e numa noite estrelada andando até os limites da mata, descobre o Rio. O Rio refletia o céu, e assim estava inteiramente coberto de estrelas. LAIÁ se apaixona por ele.

Mas a Mata tem medo do Rio, tem receio que LAIÁ se afogue. Então a Mata diz pra LAIÁ que o Rio na verdade é uma grande cobra que rasteja pela Terra, que engole as criaturas e as deixa vivas dentro dele, transformando todas em peixe.
Diz para LAIÁ tomar cuidado com ele.
LAIÁ fica com medo, mas não pensa em outra coisa a não ser nele.

Mas numa noite enluarada, LUZBELO, o dono dos sonhos, visita LAIÁ e leva ela para conhecer o Rio. LAIÁ que dormia profundamente, sonha com o Rio entrando nela, possuindo todo seu corpo.

O Rio pula para fora do leito e se deleita com LAIÁ, molhando a moça todinha por fora e por dentro.
O céu estava lindo e iluminava ainda mais o sonho de LAIÁ, fazendo com que as estrela do Rio do seu sonho brilhassem ainda mais. LAIÁ acorda toda encharcada e de tão bonito que acha seu sonho, resolve pegá-lo e o coloca dentro de uma árvore.

Do sonho de LAIÁ é gerado SEU ESTRELO, que fica dentro da árvore até seu nascimento.
Quando Seu Estrelo nasce, é LAIÁ que faz seu parto, tirando o seu próprio filho de dentro do ventre da árvore.

Ele nasce numa noite coberta de estrelas e LAIÁ resolve levá-lo para o Rio, para que este pudesse ver seu filho. Mas ao se aproximar do Rio, LAIÁ é engolida por ele, é levada por suas águas. Seu Estrelo se salva e a Mata o protege.

As criaturas da Mata dizem que LAIÁ virou uma sereia, que o Rio apaixonado por ela não teve coragem de transformá-la por inteira em peixe, fazendo isso só em uma metade, da cintura para baixo. As criaturas dizem também que LAIÁ de vez em quando aparece cantando, imitando o canto da Mata que fez com que ela surgisse. Um canto lindo cheio de estrelas.   

Parte II - O nascimento do Calango Voador.

No tempo em que a noite já existia, conta-se que depois de um longo inverno tropical, com vários relâmpagos e trovões, as últimas Nuvens choraram, despedindo-se do Mar. Nunca as Nuvens e o Mar haviam ficado tanto tempo juntos. O Mar sacudiu-se, bailando suave, lambendo a praia. As Nuvens chorando, faziam cair sobre a Terra uma chuva encantada e cheia de amor pelo Mar. E foi sem perceber que as nuvens lançaram na Terra todo seu amor. A chuva invadiu a Terra, molhando todo seu corpo. Esta acabou se encantando pelo Mar.

Não demorou muito para que a Terra, ávida de Mar, demonstrasse a ele os seus encantos e o deixasse apaixonado. E num verão cheio de amor e carícias, a Terra resolve se entregar ao Mar.

Porém, firme no firmamento, havia o Sol, que há tempos desejava a Terra. O astro rei, ao saber de tudo, enciúma-se e conta o caso para a Lua. Essa morria de encantos pelo Mar. Então, Lua e Sol combinam de enganar a Terra.

Na noite marcada pela Terra para se entregar ao Mar, o Sol, antes de se esconder, diz pra Terra que a Lua está grávida do Mar. A Terra não acredita e espera a Lua aparecer. A Lua aparece no distante horizonte, esplendorosa, linda, imensa, branca, redonda e brilhante, tão cheia que era impossível não acreditar que ela estava realmente embuchada.

A Terra irada, não se abre para receber o seu amado. Mas o Mar, ignorando a armação arquitetada pelos astros, avança impetuoso, trazendo do seu corpo agitado uma onda gigantesca, vinda do mais distante oceano, pronta para aquele ato. Desiludida, a Terra se fecha, rochedos começam a surgir, emergindo da água, e a onda que avançava se quebra por inteira, derrubando uma embarcação que na beirinha do mar descansava. 

Um casal, que no barco estava (Tereza e Nicolau), é lançado impetuosamente ao mar. A imensa espuma daquela onda quebrada se espalha pela enseada como um verdadeiro gozo, e entra de todas as maneiras em Tereza, a mulher de Nicolau. Nicolau era tão bom nos barcos que fazia, que quase todos aqueles que resolviam atravessar o Mar encomendavam um barco feito por ele. Nicolau era tão bom e confiava tanto nos seus barcos, que nunca aprendera a nadar. Por isso, depois da inesperada investida da gigantesca onda, seu barco soçobrou e Nicolau afogou-se. Tereza conseguiu se salvar, mas sem perceber, trouxe dentro de seu ser o gozo do Mar, e assim, acabou carregando um filho deste em seu ventre.

Com uma tristeza profunda, morrendo de raiva e enfraquecida, a Terra deixa-se enganar mais uma vez pelo Sol. Ele consegue convencê-la de que para se vingar, a Terra deveria se entregar para ele. A Terra concorda e assim que o dia raiou, deixou os raios do Sol penetrarem por todo o seu corpo, iluminado-a e aquecendo-a inteira.

Depois de uma semana, quando a Lua apareceu toda minguante, a Terra viu que fora enganada, mas tarde já era, pois já esperava um filho do Sol.
 
Com vergonha do Mar e vendo que fora ludibriada, a Terra resolve ter seu filho em outras paragens, bem longe dali. Deu à luz no Planalto Central, no Reino da Mata, e seu rebento é logo transformado em um Calango, para que assim fosse difícil de ser encontrado. No Cerrado e dessa maneira, nasce o filho do Sol e da Terra. O Mar só ficou sabendo que a Terra ficou grávida do Sol quando a Lua contou, assim que o Calango nasceu.

Tereza também tem seu filho, este cresce junto ao Mar e vira um hábil Pescador. Pega tudo que quer, até o mais arredio dos que nadam profundo, mesmo misteriosas e encantadoras criaturas aquáticas não se lhe escapavam. O Mar fica desconfiado com tanto destemor, pensa que aquele menino só podia ser um dos filhos seus. Encantado com o menino Pescador, logo adota o garoto, já que o seu filho com a Terra não vingou.

Um dia quando o Pescador já adulto voltava de uma pescada, encontrou na beira do Mar, mareada e majestosa, a bela Mariasia.

Quando o Pescador viu Mariasia, foi amor à primeira vista. E de tanto amor e de tanto amar, decidiram se casar. E assim, preparando a cerimônia, o tempo, que nunca espera, passou.

Perto do casamento, o Pescador, que já havia dado uma verdadeira constelação de estrelas do mar a Mariasia, pediu então ao Mar a sua Lua, sempre vista por ele em noites de luar. Esse seria o presente de casamento perfeito para Mariasia, assim achava o Pescador. O que o Pescador não sabia é que aquela Lua que ele via dentro do mar não era a verdadeira, mas apenas seu reflexo. A Lua pertencia ao céu, por isso toda vez que ele mergulhava para pegar a Lua, essa se desfazia. O Mar, ainda cheio de raiva pela traição da Terra, resolve enganar seu filho. Ele diz para o Pescador que para pegar a Lua que desejava, o rapaz tinha que matar um animal sagrado que vivia distante dali, no cerrado. O Mar disse que este animal sagrado é que tinha aprisionado a brilhante lua dentro Mar. O Pescador, sem querer mais explicações e cheio de amor por Mariasia, aceita a missão de ir embora para caçar o Calango.

Voltando de sua pescaria, o filho do mar avisa a Mariasia que antes de se casar queria dar-lhe um magnífico presente e que seria preciso viajar para esse seu desejo realizar. Mariasia sente por meio dos ventos que algo de errado está pra chegar, mas vendo os olhos de mar do pescador resolve deixar o seu amado buscar o tal presente.

O Mar então, faz crescer de si uma enorme onda. Uma carruagem com cavalos feitos de água do mar. É nessa carruagem que o Pescador sobe as águas dos rios, invertendo o curso natural das águas. A onda do mar sobe pelo rio até sua nascente.

Mas antes de partir, recebeu do Mar um arpão tão poderoso que qualquer mortal comum perderia a vida ao ser tocado por ele; netúnica arma.

Ao chegar no lugar indicado pelo Mar, a carruagem de águas salgadas se desfaz e o Pescador chega enfim ao cerrado.

Mariasia, que sempre ficava na beira do mar à espera do Pescador, começa a perceber os rumos dos ventos. Com o Pescador distante, se vê triste e chorosa, pedindo para o lamentoso coração se aquietar. Então, por meio da amizade que conquistou com o vento, começou a mandar mensagens de amor para o Pescador. Devido ao longo percurso, o vento sabendo que palavras não percorrem tamanhas distâncias e com pena de Mariasia, faz com que as mensagens se transformem em borboletas.

Dessa forma, as borboletas chegam até o Pescador, dançam em sua volta e depois procuram as flores do Reino da Mata para descansar. O Pescador, encantado com a leveza daquelas borboletas, vai atrás delas.

Entrando no Reino das Flores, o Pescador se depara com a Caliandra, flor mais linda que existe no Cerrado. Lembra-se de Mariasia e pega a flor. Mas de repente, vê um Gavião se aproximando, que avança em vôo para cima do Pescador e diz que aquela flor é dele e ninguém tem o direto de colhê-la.

O Pescador se protege, cai no chão e pega seu arpão para investir contra a ave de rapina. Mas depois de pensar um pouco, lembra-se de sua missão, então pede pro Gavião se acalmar e com o arpão na mão, fala que só devolve a flor se o Gavião falar onde o Calango costuma aparecer.

O Gavião, com medo do arpão e querendo a Caliandra, diz então onde o Calango se maloca. O Pescador agradecido devolve carinhosamente a Caliandra e vai ao lugar referido.

Depois de muito esperar, o Pescador vê o Calango chegando. O bicho pára e ofegante descansa sob o Sol. A Terra sente o pior e avisa ao Sol que observe aquela criatura.

Bem devagar o Pescador se aproxima, pega o seu arpão e prepara-se para lançá-lo. Nunca havia errado um alvo, nem muito menos deixado algum bicho escapar, tão astuto ele era. Mas no momento do golpe, o Sol manda um brilho forte, um pedaço de seu corpo-fogo, para o céu-da-boca do Calango. Sentindo em sua boca o poder do fogo, o filho da Terra estira sua língua. O brilho do Sol reluz da boca do Calango e cega o Pescador por um instante, ofuscando-lhe as vistas. Mesmo assim o Pescador lança o seu radiante arpão.

O arpão atinge de raspão o dorso do Calango, e atravessa o rio, fazendo um enorme buraco ao tocar o chão. O Pescador corre e mergulha no Rio, pega seu arpão afim de ainda alcançar o Calango. Mas quando esse tira o arpão sente o mundo tremer. O Rio ferido pela arma do caçador, faz surgir das suas águas um imenso Elefante com uma Tromba D´Água gigantesca. O Elefante D´água sai do buraco feito pelo arpão, com suas patas e sua tromba d´água vai destruindo tudo o que há em seu caminho. É aí que a Terra, sentindo que o seu filho não pode se salvar e que vai ser arrastado pelas águas do rio enfurecido, pede pro Ar salvar ao seu filho. O Ar assim dá asas ao Calango, e este consegue voar, livrando-se da poderosa Tromba D´Água do Elefante do Rio. Corre um boato entre os bichos do Cerrado, que as asas do Calango foram tiradas do Gavião, aquele que falou para o Pescador onde o Calango aparecia.

O Elefante, com pisadas pesadas, atropela o Pescador que de tanta dor desmaia. Acorda embaixo das patas, descendo pelo leito formado de pedras. O filho do Mar dá um giro e rodopia. O Elefante puxa-o pra baixo, o Pescador dá um pinote e nas costas do enorme bicho ele sobe.

Nas costas do Elefante ele levanta o seu arpão, que fere tudo o que por ele é tocado. Mas, na hora de atingir aquele monstro de água, sente um puxão e vê que o arpão fora roubado de sua mão pelo Calango de Asas, o Calango Voador.

O Elefante novamente puxa o Pescador para o fundo e os dois vão se embolando e descendo leito abaixo. O leito vai se abrindo e só pára perto do Mar.

O Calango Voador esconde o arpão em uma nuvem e esta fica tão carregada que até hoje ao primeiro atrito de outra nuvem, solta raios pra todos os lados.

Dizem que o Elefante e o Pescador foram brigando até o mar e toda vez que o Mar se enche, tenta jogá-lo pra cá, mas depois que perde a força e se esvazia, o rio o manda de volta pra lá, numa disputa de força sem fim.

A água nunca mais parou de jorrar do buraco feito pelo arpão do Pescador. Em período de chuva no cerrado, até hoje, grandes elefantes surgem com suas trombas d´água, arrastando tudo que há pelo leito.
Todo ano, quando o Calango Voador resolve matar sua sede e esfriar sua língua, que fica seca e quente por causa do pedaço do sol que traz em sua boca, um período de seca acontece e castiga o cerrado e as águas diminuem de volume. Quando enfim o Calango mata sua sede e pára de beber toda a água do rio, as águas sobem novamente, enchendo as corredeiras e as cachoeiras.

Foi assim, de amor e desamor, de temor e destemor, que surgiu o Calango Voador, reverenciado rebento, filho da Terra e do Sol, afilhado do Ar, lendária criatura, mito dos ritos de cá.

Parte III - A MATA E A TRISTE CRIATURA COMEDORA DE HOMENS

Em TERRAS ALÉM-MAR, bem longe do cerrado, surgiram homens que nem cantavam e nem dançavam. A natureza, nem direito sabia, como haviam surgido aqueles homens, talvez de um canto mal cantado. Até um certo momento, viviam em paz com a natureza. Até que começaram a se multiplicar sem parar.

De tanto se multiplicar os homens viraram uma praga para a natureza nas Terras-Além Mar. Era preciso destruir aquela praga antes que os homens se multiplicassem ainda mais. A natureza tentou destruir os homens com suas forças naturais, mas os homens que nem cantavam e nem dançavam conseguiram resistir.

A natureza então decidiu criar um homem que pudesse derrotar os homens que ali, nas Terras Além-Mar, já existiam. Um canto foi cantado pela natureza e assim surgiu o homem que acabaria com os outros homens. Este homem, como os outros nem cantava e nem dançava, mas construía coisas. Com a ajuda da natureza foi construindo de tudo, abrigos, ferramentas, armas e máquinas, até chegar a maior de suas construções, aquela que ia engolir todos os homens. Foi para esta construção que este homem surgiu, foi para isto que ele foi criado pela natureza, para construir a GRANDE COISA.

A GRANDE COISA começou bem simples, mas foi ficando cada vez mais complicada. Dentro dela havia um fogo que comia madeira, a COISA soltava fumaça. Começou parecida com uma casa, que tinha grande boca e olhos de fogo vermelho. A COISA se arrastava com seus pés de roda. Logo já vinha com outra casa grudada e mais uma. A COISA começou a engolir os homens e conforme engolia, ia ficando cada vez maior. O que era parecida com um bicho-casa rapidamente já havia se transformado em uma cidade. 

A CIDADE assim surgiu e como um grande monstro foi engolindo cada vez mais homens, todos que via. Os homens que eram engolidos viravam escravos do Comandante, daquele que gerou a COISA.

A GRANDE COISA ficou tão grande que a natureza ficou com medo e tentou parar seu crescimento. Vendo o mal que tinha feito, à natureza tentou falar com o homem que ela criou para engolir os homens, mas o Comandante já não tinha ouvidos para mais ninguém. Comandando a COISA sentia-se o dono do mundo. A natureza então tentou parar aquilo a força, mas de nada adiantou. Ela já estava enorme e ao mesmo tempo que ia engolindo os homens ia também destruindo a natureza.
 
A COISA já tinha crescido tanto que começou a ocupar toda a TERRA ALÉM-MAR. Já tava tão grande que para chegar de um lugar para o outro dentro dela, os homens começaram a construir estradas. Alguns homens que tinham sido engolidos pela COISA como escravos, agora já mandavam nos outros homens. Eram escolhidos pelo criador da GRANDE COISA para controlar os escravos e as suas revoltas. Em troca ganhavam lugar privilegiado dentro da criatura.
  
A COISA vai ocupando espaços, destruindo matas, poluindo os rios, devastando toda a Terra Além-Mar. Ela ganha força, transforma a sua natureza. Ganha novas formas, novas ferramentas, endurece, ganha cheiro, fumaça, luz, ganha sons. Sons que já não criavam mais ninguém. Barulhos. Cada barulho surgia tentava ser mais alto e barulhento que os outros.
  
O tempo foi passando e o Comandante que achava que nunca morreria, morreu. Mas deixou sucessores. E todos eles conduziam a COISA do mesmo jeito que seu criador. Na verdade ninguém mais nem sabia se a COISA era mesmo controlado por alguém ou se já fazia as coisas por conta própria. Mas sempre tinha um Comandante ou pelo menos alguém que dizia que comandava a GRANDE COISA.

Já havia muitos homens e mulheres dentro da COISA. Muitos deles já haviam nascido dentro dela e nem sabia como era vida fora da criatura, achavam que era impossível viver fora da estrutura dela. Alguns conseguiam sair da COISA, ela já estava tão grande que existiam algumas passagens, buracos para fora do seu corpo. Muitos homens saiam e voltavam trazendo plantas, semente de árvores, frutos, bichos e pedaços da mata para dentro. Outros que conseguiam achar estes buracos saiam para sempre. 

O fato é que na TERRA ALÉM-MAR já não existia mais tanta natureza fora da COISA. Ela havia destruído quase tudo. Não se tinha muito para onde correr. E assim, os homens foram se adaptando a viver dentro da GRANDE COISA, da grande CIDADE. Alguns homens lá de dentro ainda tentaram mudar o destino da enorme criatura, mas eram sempre impedidos pelos donos do poder. Como também as rebeliões internas puxadas pelos escravos, que acabavam sempre abafadas.

Depois de conquistar toda a TERRA ALÉM-MAR, a Coisa chega então à praia, ao Mar. O Mar e suas Criaturas sem entender direito o que era aquela coisa preparam-se para enfrentá-la. A guerra começou e até hoje ainda não parou. Os comandantes da COISA inventaram máquinas que flutuavam pelo mar. Cheios de coragens, os homens saiam da COISA e invadiam as águas salgadas. De tanto investirem contra o mar, os homens e a COISA atravessaram o oceano e chegaram enfim a nossa terra.

Desembarcaram em terras alheias sem nenhuma cerimônia. E como fizeram nas Terras Além-Mar chegaram com a COISA engolindo os homens que aqui existiam e destruindo tudo. Mas diferente dos homens de lá, aqui os homens dançavam e cantavam. Diferente de lá os homens daqui se misturavam com a natureza e tudo era uma coisa só. Os homens daqui então tocaram e dançaram para a GRANDE COISA e por incrível que pareça ela parou. Nunca tinha visto tal dança nem muito menos escutado tal som. Encantada com homens daqui ela se deitou e ficou sem engolir mais ninguém. Por alguns instantes foi possível acreditar que os homens e a COISA pudessem viver em harmonia.

Mas os homens lá de dentro, os Comandantes da GRANDE COISA, ficaram em agonia. Não entendiam como aqueles homens tão primitivos tocando e dançando tinham conseguido parar a COISA. Pensaram que só podia ser feitiço. Sem perder tempo começaram a fazer barulho lá dentro, ligaram todas as máquinas, fizeram a COISA soltar fumaça, assustando os homens da nova terra. Era tanto barulho que vinha de dentro da COISA que ela já não escutava mais ninguém, muito menos o cantar dos homens da mata. Era tanta fumaça que a COISA não enxergava mais os homens dançando e assim ela mais uma vez se levantou e continuou sua jornada, destruindo e engolindo todos que perto dela estavam.   

A GRANDE COISA foi crescendo destruindo tudo e engolindo os homens. A coisa vinha abrindo caminho pela floresta, rasgando a Terra, entrando a força em suas entranhas. Do corpo da GRANDE COISA saiam duras máquinas, piche, luzes, enormes tentáculos mecânicos que onde tocavam ficavam grudados. Estava tão imensa que para chegar de um lado para o outro da COISA, os homens inventaram máquinas voadoras, pássaros mecânicos. Não parava de crescer, era um monstro em evolução. E assim vinha arrastando-se direto para o cerrado.

No cerrado, Seu Estrelo foi avisado e rapidamente reuniu todo seu povo. Chamou também o Calango Voador e toda a Mata. Por meio de LUZBELO (irmão de Laia e dono dos Reino dos Sonhos) convocou os homens de tudo que é lado para se juntar na batalha contra a GRANDE COISA que se aproximava. LUZBELO entrou no sonho de vários homens, mostrando que a GRANDE COISA poderia acabar com o mundo

Veio gente de tudo que era canto. Homens que largaram suas famílias para tentar segurar o tal monstro. Cada homem trazia consigo a fé, as riquezas e os saberes de seu lugar. Vários desses homens vieram fugidos da GRANDE COISA. Massacrados lá dentro do monstro, sem direito a suas vidas, decidiram fugir e lutar junto com aqueles que estavam do lado de fora contra a ENORME CRIATURA. Alguns destes homens fugidos tinham entendido, ainda dentro da COISA, que com toda aquela destruição o mundo estaria condenado. Por isso junto com Seu Estrelo, a Mata e o Calango inventaram de construir uma nova COISA, uma fabulosa criatura. Uma nova cidade que abrigaria todos os homens que para o cerrado vieram para enfrentar a CRIATURA COMEDORA DE HOMENS que estava para chegar. Era preciso atrelar todas as forças.

A esperança enchia o ar e no meio do cerrado, em um lugar marcado com um X, começou a construção dos homens. Os homens decidiram dar asas a sua CRIATURA em homenagem ao Calango Voador, o filho do Sol e da Terra.

E assim rapidamente cercada de sacrifícios estava pronta à fabulosa CONTRUÇÃO. Uma Criatura Moderna, que levava dentro dela a esperança dos homens. Seu Estrelo e o Calango Voador comandariam os seres da Mata, todos estavam prontos para confronto.

A GRANDE COISA por fim chegou, com seus olhos vermelhos, cuspindo fogo, soltando fumaça.

A Mata lançou um canto, os homens tocaram e dançaram pros seus santos, Seu Estrelo jogou seus feitiços, o Calango seu raios de sol. Cada qual ser da mata deu sua investida. A cidade feita de asas foi pra cima da GRANDE COISA. E assim a COISA de novo parou. Estava perdida com tamanha ofensiva. Estava de novo encantada, agora com os cantos da mata. Sua estrutura tremia, como se o canto entrasse em cada uma de suas peças, em cada um de seus parafusos, parecia que ia se desmontar. Seus olhos de luz piscavam. A bicha foi se desestruturando, caindo em pedaços, abrindo espaços dentro de si. Com isto a Mata, o Ar, o Sol foram logo entrando. De repente a GRANDE COISA se viu bonita, enfeitada de flores e árvores, de canto e encanto. Até o Calando Voando por dentro da COISA voou. Os trabalhadores, os escravos, os loucos e operários lá de dentro, gritaram pela liberdade. Rapidamente se juntaram com os homens da cidade de asas e tentaram tirar o poder daqueles que os maltratavam. Parecia que a GRANDE COISA estava domada.

Mas foi ai que a coisa desandou. Os Comandantes da GRANDE COISA logo se arrumaram e com suas máquinas de guerra, de barulho e de fumaça, acabaram com revolta criada e fizeram novamente a COISA se mexer. Sem escutar o canto da natureza, cega em meio a tanta fumaça, controlada a força e a lapada, a COISA sem graça deu seu contragolpe.

Muito maior que a fabulosa CRIATURA criada pelos homens do cerrado que vieram de tudo que é de lado, a GRANDE COISA não demorou muito para dominar a cidade de asas. A batalha foi suada, de um lado a grande máquina, do outro os homens e a força da mata.

No meio de tanto barulho e tanta fumaça, o Calango Voador sumiu.
Alguns dizem que ele morreu. Alguns que ele foi pego depois de cair de cansaço, sufocado pelas nuvens de fumaça que cobriam até o sol e que está preso em uma enorme gaiola dentro da GRANDE COISA. Outros dizem que ele voou até seu pai, o Sol, para de novo se esquentar. Tem mais uns que falam que ele se escondeu dentro do cerrado pra juntar suas forças e que a qualquer momento vai voltar.

Seu Estrelo sentiu que num confronto direto não teria ganhadores, os dois lados perderiam. A GRANDE COISA acabaria com a Mata e com o fim da Mata os homens também se destruiriam. A luta era mais sutil. Sabia também que o Calango Voador tinha que está ao seu lado, não tinha chance sem o filho da Terra e do Sol.

A batalha foi vencida pela GRANDE COISA, mas a guerra ainda não.

Seu Estrelo entendeu que para lutar era preciso estar dentro da COISA. Não adiantava ficar de um lado e a COISA do outro. Percebeu que só puxando a força da natureza lá pra dentro da COISA era possível tentar domar aquela triste criatura. Também tinha que achar o Calango. Foi aí, que Seu Estrelo juntou de novo seu povo e contou seu novo plano. Disse que era preciso os homens e as criaturas da mata se dividirem. Uns ficariam do lado de fora da COISA, outros entrariam.

Com isso Seu Estrelo se afastou e cavou um buraco com as mãos. Um buraco do tamanho do seu corpo. Seu Estrelo entrou no buraco e se plantou. Nasceu do buraco uma árvore imensa, no lugar dos frutos cresceu estrelas. Os homens que iram entrar na COISA comeram as estrelas e ficaram alimentados do corpo estrelado de Seu Estrelo.

Alimentados deixaram a COISA os engolir.

Hoje, estes homens e mulheres dançam e cantam pra Seu Estrelo, trazendo para perto deles e para dentro da COISA a força da natureza. Recebem, hora dentro da COISA hora fora, Seu Estrelo e sua Falange. Contam e transmitem em suas brincadeiras, para seus filhos e seu povo, a história do Calango Voador. Alimentados de Seu Estrelo, nutrem-se da esperança de que um dia o Calango novamente aparecerá e junto com outros homens encantarão novamente a GRANDE COISA, dando fim a guerra entre a Triste Criatura Comedora de Homens e a Natureza.
 
Parte IV – Outros Seres do Cerrado

O Capitão do Troco.

Antigamente quem guardava e ensinava às músicas, as melodias, as harmonias para os homens eram as árvores. Era por meio delas que os homens aprendiam a falar com os deuses. Dentro de seus troncos uma batida surgia e todas as árvores entravam em uma mesma pulsada. Depois de tanto desmatamento as árvores resolveram se calar, hoje cantam só para elas.

Como Seu Estrelo nasceu de uma árvore, toda a sua gestação foi dentro do tronco de uma barriguda, já nasceu sabendo dos toques e cantos das árvores. Na noite em que virou árvore, antes de se enterrar Seu Estrelo disse para os homens que queria uma orelha. Era por ela que Seu Estrelo ensinaria as canções das árvores e de toda a mata. Por meio dessas canções os homens poderiam chamar ele e qualquer outro ser da mata. Quem se ofereceu foi Sebastião, que imediatamente ao pedido de Seu Estrelo cortou uma de suas orelhas e deu para o filho de Laiá. Seu Estrelo se enterrou com ela e até hoje canta canções ao pé do ouvido enterrado de Sebastião para que ele ensine aos homens. Nasce daí o Capitão do Tronco, é ele quem conhece os toques dos troncos e os cantos das árvores. O Capitão é negro e apita com um lenço para ninguém perceba que não tem uma orelha. 

De como surgiram as INVEJAS, o CANTO DOS PÁSSAROS e TIROIÁ.

Entre as sereias existia uma delas que era a mais bela, era Oiá. Seu nome foi dado porque só vivia se olhando em espelhos e no reflexo do rio. Oiá não parava de se olhar e adorava cantar para enfeitiçar os homens. Quem não era enfeitiçado conhecia as histórias de beleza de Oiá. Na vila perto do rio era o que mais se falava. Mas era tanto que as mulheres da vila começaram a criar dentro delas as Invejas. Toda vez que algum homem falava, a inveja ficava maior, mas presas entre os olhares das moças.

Oiá desejava sair do Rio e ir até a vila para uma festa. Sonhava com este dia, tinha uma profunda curiosidade de como vivia aqueles seres de pernas. Mas o Rio não permitia que ela saísse de perto dele, sabia do perigo de dar pernas para Oiá. Uma sereia sem calda perde seu encantamento e entra na mesma pulsação dos humanos, envelhecendo no mesmo ritmo e tempo deles.
 
Oiá ia ficando cada vez mais bela e sua fama ia aumentando. Um dia olhando-se no rio, Oiá viu uns pescadores pegando um peixe e resolveu encantar os homens para assim salvar o peixe. O que Oiá não sabia é que aquele peixe era um Piau, o peixe sagrado do Rio. São os Piaus que recebem o SOM quando ele desce para a Terra. O peixe agradecido por ter sido salvo oferece a Oiá um pedido. Oiá então pede para o peixe falar com o Rio para ele dar um par de pernas, de alguma mulher que ele havia transformado em sereia para que ela pudesse dá uma volta na vila. O peixe fala com o Rio, que acaba cedendo aos desejos de Oiá, mas disse que se alguma coisa acontecesse, ele não iria ajudar, pois sabia do perigo que havia por trás desse desejo.

Na vila, os homens à noite sempre se reuniam para falar de Oiá e suas belezas, cantavam, bebiam e tocavam para ela. As mulheres, principalmente as mais moças, morrendo de raiva se afastavam toda noite da vila, entrando mata adentro. Enquanto os homens ficavam cantando para Oiá, as mulheres se reuniam para falar dela e rogar praga para a sereia. Cantavam canções zombando de Oiá e assim passavam a noite toda. Em uma dessas noites, as moças acabaram dormindo na própria mata e foi tanto canto, tanto mau-falar que repousaram exaustas. As Invejas já não cabiam mais em seus corpos e de manhã ao abrirem os olhos as Invejas fugiram.

Foram direto até o rio onde estava Oiá, mas não conseguiram entrar, pois o brilho do Rio as ofuscavam, além do que elas não suportavam vê suas imagens no rio refletidas. Oiá olha as invejas e zomba delas. As Invejas passam à noite a espreita de Oiá e dormem durante o dia no canto dos olhos das moças invejosas. Elas se alimentam das flores, principalmente das rosas e dos cravos. Adoram descansar dentro delas, adoram ser vistas dentro das rosas.   

Oiá fica então sabendo de uma festa que irá acontecer na vila, pede para o peixe sagrado para pegar as pernas para ela. Combina com o piau de deixar seu rabo de sereia e seu canto com ele durante a noite. Eles marcam de se encontrar na beira do rio de manhã cedo, para Oiá entregar as pernas ao peixe e o peixe lhe entregar seu rabo e seu canto.    

Oiá, agora de pernas, caminha para a festa. Ao chegar à festa todos ficam encantados com Oiá. Ela dança e brinca com os homens. Nem as moças, nem as Invejas percebem que é Oiá, mas não tiram os olhos dela.

A festa durou a noite toda, Oiá não parou de dançar um minuto sequer.

Quando Oiá se dá conta percebe que já era dia e que tinha combinado com o Peixe na margem do rio. Oiá tenta sair sem ser notada, vai em direção a mata despistando os olhares dos homens mais afoitos. Na mata Oiá começa a escutar uns barulhos e corre assustada, era as Invejas atrás dela queriam saber quem era aquela moça tão bela. Percebendo que são as Invejas, Oiá corre em direção ao Rio para se salvar, pois sabe que as Invejas não entram nele. Oiá chama o peixe, grita pelo piau. Mas o que ela não sabe é que o piau havia sido levado por um pássaro enquanto esperava por ela.

Os cantos dos pássaros nascem daí, o pássaro que come o piau acaba engolindo também o canto de Oiá Sereia, que estava com o peixe guardado, é a partir deste dia que os pássaros começam a cantar.

Oiá se desespera, pede pro Rio uma ajuda, o Rio lembra a ela que não ia intervir se alguma coisa desce errado. Oiá se ajoelha nas margens do rio, as Invejas lhe alcançam. Quando as Invejas descobrem que a moça é Oiá partem pra cima dela e carregam Oiá pra dentro da mata.
As Invejas entram e saem do corpo de Oiá, entram e saem por entre seus dedos, seu pescoço, por trás da orelha, pelas dobras das pernas e dos braços. Oiá se contorce sente dores, seu corpo fica cheio de manchas. As Invejas se fartam e riem de Oiá. Oiá fica presa durante muito tempo, muitos anos e toda dia as Invejas obrigam a sereia a se olhar no espelho. Oiá procura sua beleza tão ostentada e já não a encontra.

Mas de tanto se olhar no espelho Oiá por fim descobre seus olhos e se enxerga, descobre uma outra beleza guardada no fundo de sua alma. Oiá carregava uma alma clara. Aprende a enxergar por meio dos olhos as almas. Começa a se achar bonita novamente ao se olhar no espelho e ganha forças. Aprende muito também sobre as Invejas, observando e escutando suas conversas. Como se proteger delas, como afastá-las, que adoram se esconder nos olhares e nas rosas. Aprende a descobri-las nos olhares, descobre que detestam se olharem no espelho e não suportam qualquer tipo brilho forte. Elas somem dependendo da força do brilho. Aprende que as Invejas nos invadem pelos cantos do corpo, por isso contra elas é preciso usar anéis, colares, lenços para encobrir atrás das orelhas. Descobre que elas odeiam certos tipos de cheiro.

Oiá volta a ter força e numa certa manhã percebe que as Invejas não estão por perto, apenas duas que estavam ali para vigiar a sereia, mas que dormiam dentro de umas flores, protegidas por uma sombra de uma árvore. Oiá bem devagar vai até elas, corta as flores e as coloca embaixo de sua saia para que as Invejas não acordem, quando chega no sol levanta sua saia, fazendo as Invejas sumirem com o brilho solar.

Oiá corre tentando chegar no rio. Depois de vários dias encontra o Rio, ele não reconhece Oiá. Oiá agora já é uma senhora. Oiá então olha em seus olhos e finalmente o Rio a reconhece. Imediatamente o Rio, com pena de Oiá, diz que pode lhe engolir e transformá-la novamente em sereia. Oiá não quer, diz que precisa acabar com as Invejas e pede pro Rio que lave seu corpo e que deixe nele alguns dos seus brilhos para que seu corpo fique completamente reluzente. O Rio então banha Oiá que fica brilhante. Os olhos que olham o corpo brilhante de Oiá ficam cegos, por isso Oiá só mostra seu corpo nu para as Invejas, fazendo com que elas desapareçam. Oiá se encanta com o banho do Rio, mas não volta a sua mocidade e desta forma vira uma eterna senhora.

Oiá ficou muito tempo com as Invejas, envelheceu muito mais rápido que qualquer mortal, seu corpo ficou cheio de manchas e feridas, mas o brilho cedido pelo Rio não deixa nosso olhar finta diretamente o corpo nu de Oiá. Os olhos cegam. Sua roupa cobre todo seu corpo. Adora dançar, pois assim chama as Invejas. As Invejas quando olham Oiá desaparecem. Oiá passa o tempo cassando as Invejas, cuidando para que elas não apareçam, planta flores pela mata, adora os cantos dos pássaros gerados pelo seu canto, vem sempre que é chamada para espanta as Invejas, é conhecida dentro da mata por Tiroiá, a feiticeira que tira os mau-olhados.


Criação e amarração Tico Magalhães